Indústria de plásticos prevê consolidação e falência de pequenas empresas
 
 

A notícia da compra da Quattor pela Braskem divide a opinião de executivos e consultores ligados à indústria de plásticos. Por um lado, existe o temor provocado pela instituição do monopólio no setor - a nova companhia será detentora de quase 100% do mercado de polietileno e polipropileno no Brasil. E há os que apostam que os ganhos de escala gerados pela transação podem estimular o aumento da competitividade da nova gigante nacional, levando a uma possível redução no preço das commodities.  Mas, tanto céticos quanto otimistas concordam que será inevitável uma forte consolidação do setor, com processos de fusão entre competidores e o desaparecimento de empresas de pequeno e médio porte.

Na origem dessa previsão está a discussão em torno dos efeitos da formação do monopólio no setor petroquímico. Para um executivo do setor que prefere não se identificar, a indústria brasileira de transformação de plásticos ficará refém de um único fornecedor. "Se considerarmos que 90% dos custos dos produtos plásticos estão na matéria-prima, é possível imaginar o estrago que essa transação poderá fazer", afirma. O executivo comenta ainda que não existe, no mundo, um mercado de dimensões continentais como o Brasil, que seja atendido por apenas um competidor do setor petroquímico.

Opinião compartilhada por Wagner Malheiros, gerente administrativo da Embaquim, empresa que produz embalagens para produtos líquidos e pastosos. Os pequenos transformadores vão desaparecer ou serão absorvidos por grupos maiores, sentencia o executivo. "Com o monopólio, o setor perdeu as opções de negociação, o que obriga as empresas a buscarem preços melhores no mercado externo. Mas, essa alternativa é acessível apenas para pequenas empresas que se unirem em pools ou para os grandes grupos que têm poder de barganha”, diz.

De fato, a importação de insumos não é vista como uma saída viável para a grande maioria das empresas do setor em busca de preços mais competitivos de matéria-prima. Afora a necessidade de um planejamento meticuloso para garantir o timing perfeito das importações frente à produção, a compra de insumos no mercado externo exige ainda um fôlego financeiro que é privilégio de poucos nesse ramo.

Mesmo os mais otimistas em relação à união entre Braskem e Quattor, como o consultor e ex-superintendente do Instituto Nacional do Plástico (INP), José Simatob Netto, preveem dificuldades para a indústria de transformação de plásticos. Ele reconhece que as companhias brasileiras do setor não têm, em sua maioria, uma estrutura de governança corporativa capaz de suportar operações mais complexas como a importação de insumos. "O setor é formado, em grande parte, por empresas familiares com gestões envelhecidas que enfrentam dificuldades de sucessão na liderança", afirma. Dados revelam que existem hoje quase 11 mil empresas na indústria transformadora de plásticos, sendo que apenas 50 são grandes grupos nacionais. O restante é composto por empresas de pequeno e médio porte, além de microempresas.

O caminho para os transformadores são as fusões e aquisições, afirma Gilmar Lima, diretor geral da MVC Soluções em Plásticos. "Eu acredito que a tendência é de consolidação no setor. Não vai mais existir espaço para os menos eficientes", diz. Dificilmente o transformador conseguirá repassar um eventual aumento de preços, segundo Lima, uma vez que seus compradores - nos segmentos automobilístico e de construção civil, por exemplo - já estão pressionando por preços mais baixos.

O executivo pondera, no entanto, que o impacto sobre os transformadores poderá ser reduzido, dependendo da postura que a Braskem tomará. "Depois de um investimento como esse para a aquisição da Quattor, a Braskem pode preferir evitar o risco de ver sua demanda cair caso eleve o preço", diz.

Na contramão das projeções mais pessimistas, o diretor da consultoria Maxiquim, Otávio Carvalho, vê com bons olhos a compra da Quattor pela Braskem. Para ele, o Brasil não pode mais abrigar empresas pouco competitivas e ineficientes. "Não há dúvidas de que esta operação forçará uma profissionalização da indústria de plásticos, setor que no Brasil ainda é muito atrasado se comparado a países desenvolvidos", analisa o consultor.

Carvalho enxerga na formação da "Nova Braskem" uma oportunidade para o Brasil construir um grupo forte, capaz de oferecer matérias-primas a preços competitivos. "Com a entrada da Petrobras na nova empresa, a expectativa é de que o País possa, enfim, criar sua própria fórmula para precificação dos insumos, em vez de seguir os preços praticados na Europa. E isso certamente será muito benéfico para a indústria nacional de plásticos", diz.

Fonte: Último Segundo.

 

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