Trincas e Fissuras
 
 
As trincas e fissuras que surgem na superfície inferior das lajes, após um certo período de sua concretagem, devem ser sempre analisadas e avaliadas em função das conseqüências que podem advir. O primeiro fator que levamos a estudo como causa principal das fissuras vem a ser o posicionamento correto das armaduras de distribuição. Ela deve ter, de conformidade com a norma, uma seção mínima de 0,09 cm² da armadura positiva e obrigatoriamente deve ser colocada acima da tubulação de eletricidade.

De um modo geral os dutos de eletricidade são plásticos, os quais possuem pouca aderência ao concreto. Ao efetuar-se a concretagem da capa de compressão da laje, os dutos de eletricidade interrompem a seção do concreto, os quais muitas vezes, aparecem expostos na superfície superior da laje.

As armaduras de distribuição têm como principal objetivo compensar os efeitos de dilatação térmica a que a estrutura está sujeita, não possuindo características estruturais.

O posicionamento da armadura – abaixo dos dutos de eletricidade e apoiada sobre a superfície dos tijolos – determina a sua localização sobre a linha neutra do elemento laje, tornando nula a sua finalidade. Quando a laje fica sujeita à exposição climática, dilata e, como as armaduras de distribuição, não cumprem a sua função em virtude de sua localização inadequada, a capa de compressão trinca (de caráter irreversível) na superfície superior, e se transmite a parte inferior da laje, ocasionando trincas no sentido paralelo as vigotas.

É comum constatarmos em obras de pequeno porte (principalmente sobrados) as armaduras serem lançadas sem critério, com distâncias entre si de até 50 cm, às vezes em um só sentido, soltas, sem fixações, e sem os cuidados que a tecnologia exige.

Um procedimento inadequado que se observa com muita freqüência é a substituição de dutos rígidos de eletricidade por mangueiras flexíveis e enrugadas. E quando indicamos a solução técnica adequada surge - por parte do construtor – justificativas de que se as armaduras fossem colocadas na parte superior, quando por ocasião da concretagem, o peso do concreto esmagaria as mangueiras, ocasionando dificuldades na passagem dos fios. Uma economia irrisória, que podem ocasionar detalhes estruturais não previstos.

Outro fator que sempre deve ser levado em consideração são as armaduras de compensação dos "momentos envolventes" de borda, principalmente quando os painéis possuem uma extensão superior a 7,00 metros. Estas armaduras são colocadas a 45 graus nas extremidades e cuja função é absorver os efeitos de rotação que surgem nas bordas. Estes "momentos envolventes" não compensados também são responsáveis pelo surgimento de fissuras que inúmeras vezes se propagam para as paredes seguindo uma linha vertical.

O concreto utilizado na capa de compressão é outro elemento importante. Ele tem que ser dosado racionalmente e ter sua resistência especifica pré-determinada. Deve possuir uma resistência mínima de 18Mpa.

Concretos aplicados sem esses cuidados, onde predomina o fator água em excesso e uma quantidade de cimento reduzida, faz com que sua resistência permaneça com valores menores do que a sua especificação, ocasionando deformações que ultrapassam os limites das flechas teóricas, surgindo, em função deste fato, um número grande de fissuras. São fatores econômicos, não recomendáveis, que comprometem a estética e a segurança das estruturas a que são aplicadas.

Trincas

Já as trincas possuem outras características. São normalmente oriundas de força excessivas, na maior partes das vezes forças verticais que agem sobre as estruturas ultrapassando os seus limites de cálculo. Estas são as razões pelas quais a capacidade de carga das lajes tem que ser a priori determinada. Uma laje com capacidade de cálculo de 150 Kg/m² não pode e não deve ser submetida à ação de uma carga de 300 Kg/m².

Seria ideal que as armaduras das lajes, em função das cargas a que estão sujeitas, fossem especificadas pelo engenheiro responsável por sua fabricação, na planta de forma das lajes.

Este é um fator importante que a idoneidade e a responsabilidade do fabricante.

E quando por ocasião de uma pesquisa de preços de uma laje de 150 Kg/m² se igualar a uma laje de 300 Kg/m² e o leigo ou até mesmo, um engenheiro vier a adquiri-la e utiliza-la podemos ter certeza, que problemas posteriores surgirão.

É por esta razão que sugerimos que seja exigida pelo Conselho de Engenharia (Crea), a anotação na ART de fornecimento, todas as características técnicas das lajes, a fim de preservar a segurança do consumidor e da obra como também exigir maior responsabilidade do fabricante.

Entre as características técnicas que deveriam figurar na ART de Fornecimento de Lajes estão tipo de laje (Convencional – Treliças – Protendidas – Alveolar, etc.); Capacidade de Carga Kg/m²; Resistência do Concreto das vigotas em Mpa; Carga nominal de cálculo (peso próprio – revestimento – sobrecarga) Kg/m²; Tempo de desforma e Contra-Flecha.

Com estas características formalizadas adequadamente, demonstra-se uma tecnologia mais aprimorada e uma maior segurança das lajes em si e nas suas utilizações. Em suma "é melhor prevenir do que remediar" uma vez que segurança de vidas humanas não tem preço.

Carlos Filizola Filho é Engenheiro Civil e Professor.