Nem todo empresário é empreendedor - DATA 30/03/2009
 

Por Luiz Fernando Garcia* 

 

Nos últimos tempos, virou moda no Brasil chamar qualquer empresário de empreendedor. Trabalho com o comportamento empreendedor há 12 anos e, apesar da minha familiaridade com o assunto, ainda continuo a me espantar com o fato de pensadores, teóricos, consultores e aventureiros de todos os tipos usarem o termo empreendedor de forma completamente equivocada.

Ao contrário do que muita gente pensa, nem todo empresário é um empreendedor, embora todo empreendedor possa ser um empresário. Na verdade, a palavra empresário designa uma função. Já a palavra empreendedor refere-se a um determinado tipo de personalidade. A função é desempenhada por alguém ou por um departamento. Já a personalidade é determinada por um jeito especial de ser e de reagir.

 

O empresário, de forma geral, é um tocador de negócios, um administrador, voltado principalmente a procedimentos. Qualquer um pode desempenhar tais atividades. É só ter conhecimento técnico adequado para fazê-lo. O empreendedor tem competências completamente diferentes, como a disposição de correr riscos, a criatividade para idealizar novas linhas de produtos e a iniciativa de ir ao encontro do cliente, entre outras.

Na visão de algumas correntes da psicologia, as características empreendedoras dependem, em grande medida, de aspectos genéticos. Forjam-se até os 8 anos de idade. Já se sabe, atualmente, que um gene, identificado num experimento científico e batizado com o nome de NR2B, é o responsável pela capacidade associativa de um indivíduo, pela rapidez do processamento da informação e pela sobrevivência eficaz em ambientes novos e hostis, atributos essenciais da personalidade empreendedora. Não é por acaso, de acordo com esta percepção, que apenas 3,5% a 5% da população mundial, conforme a fonte da informação, são, de fato, empreendedores.

 

"Eu me espanto com o fato de pensadores, consultores e aventureiros de todos os tipos usarem o termo de forma equivocada"

Ainda assim, uma corrente de estudiosos acredita que é possível desenvolver a qualidade empreendedora a partir de estímulos governamentais para a pequena e média empresa. Na minha opinião, porém, tal abordagem não gera os resultados desejados em países como o Brasil. Serve apenas para os países desenvolvidos, nos quais as taxas de juro são palatáveis e um empréstimo pode ser concedido a quem tem apenas um plano de negócio nas mãos, sem pré-requisitos, com um prazo de até 20 anos para pagar. Mas aqui, onde os tributos alcançam, em alguns casos, até 130% do valor da folha de pagamento e os bancos exigem garantias que chegam a representar o dobro do valor do crédito, que tem, no máximo, cinco anos para pagamento, é difícil imaginar que isso possa acontecer.

 

Uma outra corrente defende a tese de que é possível estimular características empreendedoras de 0 a 22 anos de idade de um indivíduo. De 0 a 4 anos, segundo os adeptos desta corrente, daria para a família estimular certas características pessoais, como autonomia, iniciativa e autoconfiança. Entre 4 e 8 anos, os traços de visão e de risco. E, dos 13 aos 22 anos, a responsabilidade pela modelagem dos indivíduos incluiria também a escola e os amigos. Só que, para mim, esta abordagem também não é adequada ao Brasil. É difícil incentivar alguém a empreender num país, como o Brasil, em que 73% de todos os negócios fecham as portas antes de completar cinco anos de vida.

Por tudo isso, tenho dúvidas de que o esforço que fazemos para capacitar empreendedores no país possa gerar resultados satisfatórios. Afinal, o que em nós pode ser aprendido? O que já viria pronto desde o ventre materno? Só o tempo poderá nos mostrar as respostas certas às perguntas acima.

 

Fonte: Pequenas Empresas & Grandes Negócios.


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