Sondagem Expectativas indicam cautela A última Sondagem da Construção ocorreu justamente após o agravamento da crise internacional, entre os meses de outubro e novembro. Em boa medida, os números da pesquisa mostram o impacto e as diferentes visões desse contexto econômico. Por isso, as expectativas devem ser analisadas com atenção redobrada, pois, em regra, o pessimismo se instala no meio empresarial com maior velocidade do que a recuperação do otimismo. Como pondera Sergio Watanabe, presidente do SindusCon-SP, a propagação da crise e o anúncio das medidas para combatê-la ocorreram de forma muito rápida. Isso pode ter dificultado a avaliação dos empresários, refletida na sondagem. E, quando o horizonte de planejamento torna-se incerto, os empresários respondem com relativo pessimismo."Pisar no acelerador no meio do nevoeiro é imprudência", resume Watanabe. Estresse financeiro Os resultados mostram que o nível de atividade continuava elevado no momento da pesquisa. Mesmo tendo recuado 14% no trimestre, o indicador de desempenho revelado permaneceu acima de 50, uma avaliação ligeiramente positiva. Em razão do ótimo desempenho do setor até setembro, esse era um resultado esperado. Mas nota-se que reversão das expectativas de crescimento para 2009 afetou o ânimo dos empresários. Por conta disso, o indicador de expectativas de desempenho recuou fortemente, passando para o campo negativo (abaixo de 50). Para Watanabe, um pequeno desaquecimento no próximo ano poderia até ser bem-vindo, desde que se tenha um horizonte de recuperação. Isso porque alguns elos da cadeia da construção deram sinais de fadiga ao longo do ano, e a inflação setorial era o grande reflexo disso. O que gerou relativo pessimismo foi a rapidez com que os fatos aconteceram em outubro. Em alguns momentos, empresários chegaram a acreditar que a construção passaria relativamente imune à crise em 2008. Nesse sentido, a deterioração repentina do quadro econômico, especialmente no cenário internacional, gerou um autêntico choque de expectativas. Por isso a repercussão, captada pela sondagem, foi tão forte. Outro fato marcante é que, para a construção, a crise atual tem múltiplas faces. As empresas grandes, por exemplo, especialmente as S.A., já vinham sentindo os efeitos da crise desde o início do ano, quando o mercado se fechou para novas aberturas de capital. Entre outubro e novembro, no entanto, predominaram elementos que afetaram todo o setor. O grande exemplo foi a redução da liquidez, exigindo do governo medidas para irrigar o mercado. Esse estresse financeiro foi captado pela sondagem. O indicador de dificuldades financeiras piorou mais de 20% no trimestre e cerca de 42% na comparação com novembro de 2007. Por fim, as medidas de combate à crise também estão tendo impactos múltiplos, ainda não detectados com clareza. A possibilidade de que a Caixa Econômica Federal adquira debêntures das construtoras, conversíveis em ações, opção em princípio rejeitada pelo setor, só teria eficácia para as poucas empresas de capital aberto. Já o direcionamento de recursos vinculados das cadernetas de poupança para o capital de giro tem impacto muito mais amplo. O país e o setor A sondagem revelou ainda que os empresários estão mais preocupados com as perspectivas da economia como um todo do que com o crescimento do próprio setor da construção. Como não poderia deixar de ser, as expectativas de crescimento do país para 2009 se reduziram. Na comparação anual, o recuo foi da ordem de 50%, jogando o indicador para o campo pessimista (abaixo do valor de 50). Essa queda foi bem mais acentuada do que a do indicador de desempenho das próprias empresas da construção. Segundo a análise de Watanabe, pode-se dizer que isso é resultado do chamado "efeito carregamento". As obras em andamento no final de 2008 garantirão um bom nível de atividade para boa parte do ano de 2009. Isso demonstra a capacidade do setor de resistir aos momentos de crise. A grande dúvida refere-se à extensão desse mau momento. Em um cenário de progressiva melhora ao longo de 2009, a capacidade de a construção voltar a crescer em bases sólidas é real. Maiores preocupações virão caso a crise atual seja mais longa. Outro contraste interessante entre o país e o setor da construção se refere à inflação. Como resultado da desaceleração, houve melhora na percepção dos empresários com relação aos custos de materiais. Na sondagem nacional, a melhora do indicador de custos chega a 20% no trimestre e quase 10% no ano. No Estado de São Paulo, essa melhora foi de 17% e 8%, respectivamente. Por sua vez, avaliação relativa à inflação em geral também melhorou no trimestre, mas foi pior do que em novembro de 2007. Esses resultados confirmam a percepção de que a desaceleração setorial deve reduzir os níveis elevados de tensão ao longo da cadeia da construção, gerando menores descompassos entre oferta e demanda por materiais e mão-de-obra. Conjuntura e estrutura A última edição anual da sondagem traz sempre um conjunto adicional de questões com o objetivo de aprofundar a análise conjuntural e estrutural do setor. Os resultados de 2008 mostram que a construção continua vítima de velhos problemas estruturais, como a burocracia fiscal e tributária e as dificuldades de obtenção de licenciamento ambiental. Mas as questões conjunturais ligadas às perspectivas para 2009 merecem atenção. Como esperado, as empresas do setor não estão vendo no mercado de capitais uma alternativa importante para a obtenção de recursos em 2009. Nas palavras do presidente do Sinduscon-SP, não há no horizonte nenhuma perspectiva de que esse canal de capitalização das empresas seja reaberto. Novas aberturas de capital só virão quando a confiança dos investidores, nacionais e estrangeiros, for plenamente restaurada. E isso não se dará em questão de meses. Como reflexo das condições vividas no momento da sondagem, a percepção do setor é de que a securitização de recebíveis será mais difícil em 2009 e que o volume total de crédito para a construção irá se reduzir. Em razão de uma percepção de piora nas condições de crédito para os compradores e, especialmente, para as construtoras, os empresários do setor se mostraram moderadamente pessimistas quanto ao crescimento do número de lançamentos em 2009. Persistem preocupações com a oferta de mão-de-obra qualificada e com o fornecimento de materiais de construção no próximo ano. Ambos os indicadores permaneceram no campo do pessimismo (abaixo de 50). Esse fato está em linha com a percepção de que a crise atingiu o setor em um momento de crescimento acelerado. No entanto, a sondagem detectou claro alívio na percepção dos empresários com relação a essa escassez. Na comparação com 2007, os indicadores de preocupação com obtenção de mão-de-obra qualificada e fornecimento de materiais para o próximo ano melhoraram 64% e 41%, respectivamente. Em resumo, a diversidade de impactos da crise é a tônica no setor da construção hoje. O denominador comum é a incerteza, que recomenda cautela. Fonte: Revista Sinduscon –Conjuntura da Construção. 2009- Projeções de Crescimento para o setor. Autor: Robson Gonçalves |